O dia tinha corrido normalmente como sempre para Laura e Justino.
Ele tinha ido trabalhar, mais alegre que antes, uma mudança que não passou despercebida a chefes e colegas. Justino era um homem novo.
Laura tinha dormido até tarde e agora estava a preparar-se para ir trabalhar mais uma noite como todas as outras…
Quando chegaram ao Moonlight, o gerente disse a Laura que tinha um ramo de flores no camarim de mais algum fã.
Chegados ao camarim, o casal depara-se com um enorme ramo de orquídeas (as flores favoritas de Laura) e um cartão com uma letra muito cuidada dizendo:
“Não existe nada mais belo que tu, nada mais perfeito e sublime! Tenho pena destas flores que se vão sentir tão feias e tristes na tua presença. Mesmo assim, mando-tas sabendo que são as tuas favoritas. Pode ser que um dia tas dê pessoalmente. Mandar-te-ei flores todos os dias e cada vez maiores até ao dia que as darei em mãos. Até lá minha querida.
Atenciosamente,
Um fã dedicado”
- Que simpático! Escreve muito bem… – Disse Laura sorridente enquanto metia as flores numa jarra já pensada para o efeito.
Justino não conseguia partilhar da alegria dela. Não era ciumento. Sabia bem que Laura tinha inúmeros fãs, como ele ainda o é, que lhe mandavam sempre prendas e flores mas aquele era diferente. Algo na frase “Pode ser que um dia tas dê pessoalmente” não soava bem… Mas não disse nada a Laura. Não quis parecer um namorado possessivo e por isso sorriu também.
Passaram-se dois meses e todos os dias chegavam mais ramos e mais declarações. Cada ramo maior que o anterior e cada declaração mais atrevida e mais pessoal. A última fez Laura estremecer.
“Vejo-te cantar todas as noites neste bar imundo. Olhas para mim e sei que queres estar comigo. Sonho que és minha e só minha. Um dia serás mesmo! Não te iludas! Esse teu namorado não te faz jus. Só eu sei como tratar tamanha beleza como a tua. Esses teus olhos de esmeralda e cabelo de fogo vão me pertencer um dia. Espero apenas o dia certo.
Atenciosamente,
O teu fã mais sincero”
Laura entregou aquele bilhete a Justino que foi imediatamente ter com o gerente furioso.
- Não quero mais que aceitem estas flores! Quando voltarem a ver este homem quero que chamem a polícia! Ele não deve chegar-se ao pé de Laura ou ela nunca mais mete cá os pés! Estou a falar a sério S. Gonçalo! Quero ver como este cafezito rasca se aguenta sem a sua estrela principal!
Justino estava genuinamente preocupado. Nunca gostara daqueles recados… Mas nunca tivera coragem de dizer a Laura. Agora teme que, pelo seu receio de falar com Laura, a sua vida tivesse em perigo.
Os cartões pareciam vindos de um homem doentio. Queria Laura só para ele. Justino morria de medo do que o tal “fã sincero” seria capaz de fazer para cumprir as suas promessas. Foram cumpridas até agora… Tinha a certeza que o homem iria tentar cumprir aquela também. Não havia tempo a perder. Laura tinha que ser protegida.
Nessa noite Laura não actuou, para descontentamento de toda a gente incluindo o gerente do bar. As receitas nessa noite caíram a pique. Tudo por causa de uns cartões. Namorado estúpido e nervosinho que Laura arranjou. Tinha que se ver livre dele rapidamente ou perdia o bar que tanto trabalho lhe deu a erguer do nada. Ainda teve a lata de o chamar “cafezito rasca”! Ordinário! O melhor bar da cidade! Como se atrevia ele?
E foram com estas palavras no pensamento que o Gonçalo se foi deitar naquela noite, nunca pensado que Justino estava certo… Apenas ciumento.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
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