Corria o ano de 1968, Julieta de Andrade, filha mais nova de uma das famílias mais ricas da cidade, dava prestes a dar à luz a um rapaz. Estava muito feliz. Ia ser um filho lindo. Sairia com a sua beleza de certeza. Aqueles olhos verdes rasgados, cabelo ruivo aos caracóis… Ou então sairia lindo como o pai. Pele escura, olhos e cabelo castanho-escuro. Um casal tão bem parecido tinha que ter um filho lindo. Chamar-se-ia Afonso, como o seu pai falecido há uns meses atrás. Como ele iria ficar feliz com aquele neto…
O parto foi rápido e sem complicações por isso Julieta não entendia porque não lhe deram o filho logo que este nasceu… Não o ouvia a chorar. Algo estava errado. Eduardo larga a sua mão e vai a correr ver o seu filho. Uns minutos depois ouve-se um choro desesperado de uma criança a querer respirar. Afonso estava vivo. Que susto…
- Porque não me trazem o meu filho? Quero vê-lo! – Gritou Julieta para o ar mas ninguém lhe responde. Entra em pânico. Algo se passa com o seu filho. O seu menino perfeito. Chama pelo seu marido, mas ele nem a ouve, está pálido a olhar para Afonso. O medo instala-se na sua mente. Não sabe o que pensar… Nisto Eduardo entra na sala de partos com um ar completamente desanimado.
- O nosso filho é cego do olho esquerdo… E a mão esquerda dele não está completamente desenvolvida… Não se formaram os dedos… Lamento muito querida.
Julieta não queria acreditar. O seu menino perfeito… Não era perfeito. Que mal teria feito ela para merecer um castigo daqueles? Era muito pedir um menino com 10 dedos das mãos e 10 dedos dos pés? Um menino que visse e ouvisse bem? Um filho cego de um olho? E sem uma mão? Não pode ser verdade! Tinha que vê-lo com os seus próprios olhos!
Com consentimento da médica, Eduardo foi buscar Afonso para que Julieta o pudesse ver com os seus próprios olhos. Ela olha para os braços do marido onde jazia um pano branco envolvendo um corpo minúsculo que se mexia de vez em quando soltando os sons normais de recém-nascidos. Com todas as suas forças, Julieta fechou os olhos e desejou destapar o seu filho e que tudo desaparecesse como se por artes mágicas. Como se tivesse sido apenas uma ilusão… Um pesadelo horrível. Desejou acordar e o seu filho ainda na sua barriga a dormir descansado.
Eduardo chega perto de Julieta com lágrimas nos olhos, fazendo luto. Como se, o filho que estivesse nos seus braços estivesse efectivamente morto e não com algumas deficiências como era a realidade…
Julieta tirou o pano que tapava o seu filho a medo. Não sabia o que ia encontrar… E o que encontrou iria assombra-la para todo o sempre. Soltou um triste gemido ao olhar para a cara do bebé. Em vez de um olho saudável e castanho como o outro, o olho esquerdo de Afonso estava completamente branco e sem vida, como se alguém o tivesse pintado. Era surreal… Mas o que realmente a deixou agoniada era a mão do infante. Em vez de 5 dedos saudáveis tinha um coto disforme de carne vermelha, mole e enrugada. Uma visão tão hedionda que a fez quase deixá-lo cair sem intenção à medida que deu um grito de horror.
- Não… Não pode ser! Não há nada que se possa fazer? Ele não pode ficar assim! Será uma desgraça!
Os anos foram passando e passando e a vida do jovem Afonso era tudo menos normal.
Sua mãe não permitiu que ele frequentasse a escola porque não ia aguentar que as pessoas soubessem do estado do seu filho. Foi educado em casa, professores privados com um acordo muito rigoroso de nunca falarem de Afonso, assim como os empregados da casa. Era como se Afonso nunca tivesse existido.
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